Lóki – Arnaldo Baptista

Assisti hoje (não bem hoje, mas tudo bem) o filme Loki do Arnaldo Baptista. Demorou e poderia demorar mais se não fossem as piratarias do bem que multiplicam-se pela internete levando o conhecimento aos mais distantes centros. Vou comprar o dvd, a caneca e a camiseta… Sou desse tipo de público que baixa as mais diversas referências mas ainda valoriza o original. Inclusive já aproveito para divulgar que o dvd está em pré-venda e vale a pena. Já que o som e imagem do arquivo que eu vi não é bom.

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Mas enfim… o importante disso tudo são as constatações. E que na verdade são simples e poderia resumir em uma frase: O filme é emocionante, sensacional e apresenta uma leitura muito interessante do que foi a vida do Arnaldo. É a trajetória desse músico que é simplesmente um dos maiores expoentes da musica brasileira de todos os tempos. Essa frase acima já demonstra o que é o filme. Se quiser ler além disso, vai encontrar uma série de observações de alguém que é fã, mas que tenta o máximo possível identificar e entender (sempre de forma isenta, se é que isso é possível) os momentos da melhor e maior banda de musica brasileira de todos os tempos. Sempre acompanhei a história dos Mutantes e já tinha lido muitas coisas a respeito e escrito alguns textos sobre. Mas este filme foi fundamental para esclarecer uma série de fatos e situações que antes geravam lacunas. Não titubeio em dizer que o filme é um grande registro de uma vida. Que teve o seu momento genial enquanto criação musical com os Mutantes. O período mais introspectivo nos discos solos. O acontecimento catastrófico que coloca em prova a existência humana. Algo perto do fim. O renascimento sempre acompanhado pela Lucinha (apontados por muitos como o anjo da guarda que pousou suas asas e existência ao lado de Arnaldo e dali nunca mais saiu). O retorno triunfal quando Arnaldo sai do sitio em que viveu durante 20 anos e percebe os frutos daquilo que foi plantado muitos anos antes com o reconhecimento mundial. Sem frescura ou ressentimentos é assim quem deveria ser. Mas nem sempre é assim e o lado polêmico continua sendo a Rita Lee e a separação dos Mutantes. Todo o sentimento de amor e ódio estão presentes. A vida do Arnaldo é uma história bonita, genial e trágica e talvez seja mais bonita porque o cerne dessa história toda é o amor. O mesmo amor que une e que é legal, mas que maltrata e é cruel. Se esse filme fosse feito em outra época, com certeza o final não seria esse. E isso é interessante de perceber que o final é feliz. Mesmo que não tenha acabado. E talvez todos esses elementos presentes de forma tão intensa e sublime é o que qualquer escritor jamais ousaria sonhar. Resolvi comentar em tópicos porque fica mais fácil. E vamos começar justamente pelo mais polêmico.

1. Rita Lee

Em primeiro lugar ela não quis participar do documentário e durante muito tempo não quis participar de nada relacionado ao nome Mutantes (muito menos a volta do grupo em 2004). Certa vez eu conversava com um músico ligado diretamente com tudo isso que aconteceu, e que não vou citar o nome até porque esse comentário foi feito em off. A sua constatação é muito interessante e que acaba se juntando com outras peças do quebra cabeças. Ele disse (não necessariamente com essas palavras): É lógico que a Rita não fala sobre os Mutantes, se ela assumir que os Mutantes é tudo isso que o mundo descobriu na década de 90. Ela joga toda carreira dela pós mutantes no lixo. Justamente por concordar que aquele momento é que era genial. Essa fala pra mim resume a Rita Lee. Alguém que trocou uma possibilidade genial por algo mais pop e consumível, ou seja o sucesso que ela acabou alcançando nos anos seguintes. A Rita Lee sempre buscou o sucesso ao qualquer custo. É que diz a letra da música “Sucesso, Aqui Vou Eu” do disco Build Up, primeiro disco solo da Rita Lee. A letra diz: Já estou até vendo, Meu nome brilhando. E o mundo aplaudindo ao me ver cantar, ao me ver passar, I wanna be a star! Lembrando que esse disco foi lançado quando ela ainda fazia parte dos Mutantes. Um jogo da gravadora de promover aquela que para eles era a essência da banda. E a mídia/imprensa burra da época (não só da época porque a mídia/imprensa é burra em todas as épocas) comprou a idéia e durante muito tempo os Mutantes forma conhecidos como a banda da Rita Lee. Outro aspecto que o filme Lóki faz questão de desmistificar. No filme fica claro (a partir dos depoimentos de todos os integrantes) que aquele papo da Rita Lee ter sida expulsa dos Mutantes não era real. Todos os integrantes dizem no filme que ela chegou numa das reuniões do grupo na Cantareira onde eles moravam e falou em alto e bom tom: “Estou saindo dos Mutantes”. Quem traduz isso de uma forma até meio sarcástica no filme é o Sergio Dias: ele se pronuncia dizendo que a Rita Lee gosta de distorcer as coisas para deixar a história mais interessante. E que o mundo de fantasia e personagens que ela cria é para não deixar o mundo tão chato. Nesse sentido era mais romântico dizer que ela foi expulsa. Talvez isso refletisse um sentimento. Mas a Rita Lee já tinha dois discos solos na época. O que acaba ser conveniente fechar os olhos e simplesmente criar uma desculpa para continuar aquilo tudo de uma outra forma Também concordo que na verdade foram muitos os motivos. Não é somente uma coisa que motiva as pessoas a tomar decisões e sim um conjunto de fatores. Tinha o lance do rock progressivo em voga dentro da banda e exigindo um lado musical mais expressivo de alguém que nunca teve isso. O estado obsessivo do Arnaldo que motivou a rita Lee Interna-lo num momento seguinte. O fato dela perceber que não era mais o centro das atenções. O fim do casamento com o Arnaldo. Tudo isso deve ter gerado a sensação de: vou sair antes que me toquem embora. Isso também aparece num depoimento do Arnaldo. Ali ele diz que a Rita Lee sempre foi voltado ao lado mais circense da banda (expressão utilizada pelo Arnaldo no documentário para descrever a Rita Lee). Ou seja do visual e das performances. Vendo o documentário fica claro perceber que o filme é uma baita homenagem ao mentor disso tudo que foram os Mutantes. E com certeza esse é o reconhecimento que a Rita Lee – titia/avó do rock brasileiro (como gosta de se intitular) não vai ver. Não dessa forma espontânea e não com essa intensidade. No livro a Divina Comédia o Carlos Calado, ele coloca que o fim dos Mutantes se deu quando aconteceu o fim do casamento dos dois. Tanto que, quando o Arnaldo se joga da janela do hospital ele acaba de certa forma presenteando a Rita Lee pois o fato aconteceu no dia do aniversário dela. Da parte do Arnaldo é que como se ele estivesse sepultando-a de vez. Enterrando todos os seus fantasmas. E como ele mesmo diz no documentário: Escolhi esse dia para terminar com aquilo que a Rita Lee começou. Levando em conta que foi ela que internou ele a primeira vez e todos os outros elementos presentes num relação tão intensa como foi o relacionamento dos dois. Na reunião dos Mutantes ela se referiu ao grupo como uma banda de velhos querendo ganhar dinheiro para pagar o geriatra. Sim é engraçada a constatação. E acredito que seja um pouco isso também. Mas quem é a Rita Lee que sempre foi pop vendida pra tudo que é tendência musical (fazendo trilhazinha para novela das sete) criticando alguém que tenta sobreviver com a sua obra. E que obra diga-se de passagem.

2. A genialidade do Arnaldo

A genialidade e influência do Arnaldo/Mutantes é outra coisa que fica comprovada no filme. Primeiro no depoimento de quase todos os integrantes das bandas que Arnaldo participou. Sérgio diz que nos Mutantes, tudo era decidido a partir do ponto de vista dele e que tudo acabava funcionando a partir do voto decisivo do Arnaldo. Ele era o cabaça da banda e tudo acontecia a partir dele. Desde as composições, arranjos e rumos que o grupo tomava. Isso é ressaltado pelo Rogério Duprat, liminha, dinho entre outros que conviveram com eles no período. Isso que eu identifico como genialidade é fácil de perceber pela sobriedade nos depoimentos dele em relação ao que estava acontecendo. Ele tinha consciência plena do que estava fazendo. Tem dois momentos que isso acontece através de entrevistas da época. Uma delas acompanhando o Gilberto Gil ainda no inicio de carreira quando eles iam tocar Domingo no Parque no festival. O repórter pergunta se ele estava surpreso. E ele diz que não. Que era isso que eles tinham planejado e que era isso que eles esperavam. O repórter ri como se dissesse, mas que pretensioso e depois o Gil explica. Num segundo momento um repórter entrevista Arnaldo sobre o Patrulha do Espaço. E ele diz que aquilo não é uma continuidade dos Mutantes, que os Mutantes eram únicos. E que o que ele estava fazendo com o Patrulha era mais simples, reto e rítmico enquanto que os Mutantes eram mais harmônicos, melodiosos e com estruturas musicais mais complexas. Outro elemento que eu já destacava nas minhas observações (em conversas, textos e afins). De que o melhor disco de rock da década de 70, dessa leva de bandas que insistiam em copiar de forma básica (e muitas vezes mal feita) o que acontecia fora do país, é o primeiro disco do Patrulha do Espaço. O disco inteiro foi composto pelo Arnaldo. Arnaldo e a sua genialidade em projetar desde as composições mais complexas até as possibilidades mais simples e faz isso de uma forma genial nesse disco. O disco não foi lançado na época que foi gravado e isso foi ruim. Aposto que se o “Elo Perdido”, tivesse sido lançado teria sido um choque e as pessoas iriam perceber que ele estava um degrau acima de tudo aquilo que acontecia no final da década de setenta. Enfim… não tem como saber. É só um palpite. Gostaria ainda de destacar essa sensibilidade ao extremo que o Arnaldo possui. É isso que faz o cara ser um gênio, mas que também faz que com o seu lado incompreendido venha a tona de maneiras inusitadas. É a mesma sensibilidade que projeta coisas sensacionais, em muitos momentos destrói o cara. Seja por um grilo falante que atormenta seus pensamentos mais profundos ou pela falta de referencias que faz com que as pessoas simplesmente não entendam o que esta acontecendo. Aí sim o caminho mais fácil é utilizado e junto com ele vem todo peso da ignorância e do preconceito. Ele diz isso no final do filme. Eu sempre quis dizer X para que as pessoas entendessem X, mas não foi isso que aconteceu. E o Sérgio diz isso num dos momentos em que ele comenta que os estúpidos de plantão não entenderam. É mais fácil rotular de louco aquilo que não é compreendido. Mais louco é quem me diz e não é feliz.

3. As drogas e a comparação com Syd Barrett.

Nunca fui partidário da idéia de que eram as drogas que potencializavam a criatividade. Talvez ajudassem num primeiro momento a libertar algo. Mas algo que aos poucos ia morrendo junto com a pessoa. Recentemente li um livro sobre os Beatles que justifica o fim da banda dizendo que depois que eles se envolveram com acido se tornaram pessoas tristes, com olhar perdido e vazias. Nunca tinha lido nada nesse sentido. Mas sempre acreditei que isso poderia ser um fim. Casos comuns e tradicionais dentro da música e aí se encontram todas as pessoas que sucumbiram a realidade e optaram pelo caminho das drogas. Um caminho sem volta na maioria dos casos. As principais comparações talvez sejam justamente Brian Wilson e Sid Barrett. E nesse documentário é interessante perceber que o Arnaldo estava indo pára o mesmo caminho. Um caminho insano e descontrolado onde a realidade se fundia com elementos reais e tudo virava psicodelia. Sempre achei essa teoria meio furada em relação ao Arnaldo. Mas o filme confirma isso. Se ele não tivesse se atirado do terceiro andar. Hoje ele seria uma pessoa triste. A queda foi essencial para o renascimento. A morte do mito e o ressurgimento do ser humano. Sim já fiquei muito triste de ver a situação ou pensar nesse tipo de situação. Certa vez trabalhava num programa de Tv e tive a oportunidade de entrevistar pessoas com deficiência mental (tem um nome politicamente correto que eles usam para defini-los, mas não me lembro). E a minha apreensão num primeiro momento resultou numa explosão de sentimentos no momento seguinte. Eles são criaturas sensacionais. Com uma energia e luz que não tem explicação. E se tivesse uma explicação, talvez seria de que eles vão ser crianças para sempre. Eles nunca vão envelhecer. Vão manter a ingenuidade eterna de quem não esta aí para as coisas que fazem parte do mundo adulto. E sendo bem sincero. O Arnaldo se tornou uma eterna criança. Ao cair com a cabeça no estacionamento. Ele deixou ali tudo o que ele tinha de ruim e potencializou tudo o que ele tem de bom. Ele é uma luz. A vivacidade e emoção que ele passa pras pessoas é indescritível. Nesse caso talvez seja conveniente usar a expressão: deus escreve certo por linhas tortas.

4. Lucinha – por último, mas não menos importante.

Também é notória a intervenção da Lucinha na vida do Arnaldo. Isso todo mundo sabe, mas os seus depoimentos são emocionantes. Ela mesmo, diz no documentário que todo mundo abandonou o Arnaldo e ela foi lá juntou os pedaços. As mil peças que se transformou a cabeça do Arnaldo depois da queda. Ela ajudou a reconstruí-lo novamente. Já tive a oportunidade de agradecer quando a encontrei pessoalmente. O que ela fez pelo Arnaldo é algo sublime e inimaginável. Qualquer outra pessoa ia fazer o que todo mundo que estava ao ser redor fez. Ninguém quer um peso na sua vida. E pelos indícios ele já era um peso antes de se jogar do terceiro andar no hospital, imagina depois. Mas pelo contrário, Lucinha cuidou dele nos momentos mais difíceis. Momentos em que as pessoas não queriam ver ou chegar perto. Ela estava lá firme e forte e como o próprio filme diz devolvendo ao Arnaldo tudo o que ele tinha lhe proporcionado em termos musicais. E aí é que está a diferença do que você projeta nas pessoas. O John Lennon foi assassinado por um fã que se sentiu traído. A Lucinha que era fã de Arnaldo ajudou-o a renascer. Assistam o filme. Esta saindo em DVD e em breve estará em todas as locadoras.

5. Lóki – Dvd oficial

 

Ainda não tinha postado o texto no blog e acabou de chegar o DVD oficial do Lóki e uma camiseta. Vale a pena assistir com a imagem e som melhor. E além do que, vem um making of com algumas imagens inéditas. É curto são somente 17 minutos. Poderia ter mais algumas coisa. Tem uma sessão de fotos com quadros pintados pelo Arnaldo. E no dia 28 de novembro. Dia do lançamento oficial do filme em dvd Arnaldo estará na Livraria Cultura em São Paulo autografando o dvd.

Clique aqui para comprar o DVD:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/videos/resenha/resenha.asp?nitem=2941703&sid=87209120911111372845803311&k5=B6ECE74&uid=

Site oficial: http://www.arnaldobaptista.com.br/

Compre os discos do Arnaldo em vinil:

http://www.baratosafins.com.br/arnaldo.html

 

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5 Responses to “Lóki – Arnaldo Baptista”


  1. 1 zjfjgz maio 17, 2010 às 2:20 am

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  2. 2 Isa junho 5, 2010 às 11:36 pm

    Arnaldo Batista foi e ainda é um grande mestre, seja para a música brasileira na vanguarda do rock brasileiro, seja na demonstração de superação… o filme, assim este excelente texto, emerge uma pessoa fantástica e até então ocultada pela indústria da música pop e mercantil.
    É uma pena que a Rita Lee não tenha colaborado com esta grande obra… pois, ao contrário do que pensam alguns, não serão as trilhas sonoras das novelas da globo quem irá repassar valores äs futuras gerações…
    Salve Loki!

  3. 3 Dan K abril 19, 2013 às 5:11 am

    Muito bom seu comentário sobre ‘Lóki’ e as reflexões em cima. Essas coisas que acontecem nas vidas de um ser humano… às vezes, elas atingem uma intensidade que está além do nosso controle. É mais do que bom ou ruim, é simplesmente intenso. Acho que isso foram os Mutantes – e claro, muito bons! A história do Arnaldo (que é a história de muita gente também, acredite) sempre me lembra uma frase de um som do The Police: ‘Love can mend your life, but love can brake your heart’. Abraço!

  4. 4 revistainterage agosto 26, 2014 às 6:55 pm

    Esse foi um dos posts mais lindos e esclarecedores que já li sobre o Arnaldo. Obrigado.

  5. 5 nay agosto 26, 2014 às 6:57 pm

    Esse foi um dos posts mais lindos e esclarecedores que já li sobre o Arnaldo. Obrigado.


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