O ir e vir. A Morte Com Frete Grátis.

O ir e vir é uma opção. Vivemos num mundo livre. Um mundo de escolhas e inúmeros caminhos. Mas nem sempre depende das pessoas. As vezes depende de algo que ainda não compreendemos direito. Os mais crentes pensam se tratar de um ser superior que rege a tudo e a todos. Os mais céticos acham que é o acaso, algo totalmente sem sentido que interfere nesse desejo de continuar ou de se estabelecer de forma diferente. Bergman dizia: “somos mortos insepultos apodrecendo debaixo de um céu cruel e vazio”.  Se é uma coisa ou outra eu não sei, só sei que somos muito pequenos e impotentes diante disso tudo.

Alguns brincam com a morte de forma irônica. Outros a tratam como tabu. Os mais experientes entendem como um rito de passagem. Neil Gaiman Retratou a morte como uma mulher com aspectos atraentes e fatal. Bergman foi um pouco além e ousou desafiar a morte para uma partida de xadrez. Apesar disso tudo, deveríamos saber que não é a forma com que lidamos com a morte que vai determinar quando será a nossa hora. É a maneira como vivemos e as coisas que fazemos para os outros e principalmente para nós mesmos. E mesmo assim isso não é determinante. Tenho costume de dizer que cada um se mata do seu jeito. Sem cinismo ou falsos moralismos e muito menos aquela premissa de que todo mundo que morre vira santo. Mas as vezes percebemos casos em que a pessoa nunca fez mal pra ninguém e acaba tendo um fim trágico. É difícil compreender o porque isso acontece com algumas pessoas e não com outras. Porque deveria ser antes ou depois ou então naquele exato momento. Instantes de segundos onde tudo acontece ou pode acontecer e que as vezes não acontece nada. Quando é o limite disso tudo??? Existe um extremo, onde ultrapassamos as barreiras e não temos mais a opção de volta?

A pergunta pode ser complexa e a reposta pode ser um momento de silêncio. Uma pausa entre um momento e outro. Silêncio é legal, mas a musica é algo muito superior. Pra mim tudo fica muito mais triste quando morre um músico. Ao meu ver, a música é algo superior. A possibilidade de ouvir uma bela canção não tem explicação.Sem música, a vida seria um erro.”. Disse certa vez um filósofo ateu. Essa frase pra mim é quase um mantra. Não consigo me imaginar, ou imaginar a minha vida sem a música. Por isso acredito que deveria existir uma exceção nesses casos. Músicos não deveriam morrer cedo. Deveriam ter a chance de jogar xadrez com a morte para prolongar um pouco mais a partida.

A vida é assim.  Quando nascemos vem tudo incluso no pacote. O problema é que não somos acostumados a encarar isso de uma forma mais tranqüila e natural. Ficamos tristes quando morre alguém próximo, as vezes com raiva… outras vezes nem damos bola quando se trata de uma noticia de alguém distante. Estamos em Chapecó. Ano de 2011 e começamos o ano do rock com a notícia da morte do baterista Tubin – integrante da banda Epopéia. Um jovem como qualquer outro que acreditou que a música poderia ser uma saída. E foi. Presenciamos muitos momentos vendo ele empunhar as baquetas desse instrumento tão preciso e impressionante. Ver o Tubin tocar era divertido. É legal ver as pessoas que sentem prazer naquilo que fazem e por isso mesmo o fazem muito bem. Vi muitos shows do Epopéia e sempre me diverti muito. Mas o momento da despedida é mais introspectivo. É o momento que nos faz pensar num monte de coisas.

A cidade amanhece mais triste. Talvez nem todo mundo perceba. Mas não importa. Passamos um momento na história do rock chapecoense que já não é dos melhores. Os espaços se tornam cada vez mais estreitos e as possibilidades cada vez menores. Percebemos uma invasão de musica ruim e nos sentimos impotentes contra isso tudo. E isso parece tão inevitável quanto a morte. A música ruim e a morte andam lado a lado. Mas temos que acreditar em algo. Temos que nos apoiar nas coisas boas que permanecem e nas possibilidades que se reconfiguram. Se fosse pra escolher, e se eu tivesse esse poder escolheria o inverno sempre. Mas temos que aprender a conviver com todas as estações.

Não podemos encarar o momento da despedida como um fim. Talvez seja o momento da pausa. O momento de um intervalo entre uma música e outra, entre uma frase de guitarra ou virada de bateria. Partir é isso. Um espasmo de tempo tão curto dentro de um compasso maior que á música. Pros que vão, um valeu e até a próxima! Para os que ficam permanece a imaginação dos momentos compartilhados. Os frames da vida que só são percebidos quando não estão presentes. Na minha opinião a vida deveria ser mais musica. Em todos os sentidos.

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2 Responses to “O ir e vir. A Morte Com Frete Grátis.”


  1. 1 Liza fevereiro 6, 2011 às 8:39 pm

    lindo e belo texto!
    obrigado Roberto!
    a Epopeia agradece de coração..
    bjs e saúde!

  2. 2 Nanda fevereiro 17, 2011 às 1:06 pm

    Nunca vou esquecer quando você me disse, numa conversa/entrevista, algo mais ou menos como: o importante é que as pessoas façam alguma coisa que sobreviva ao tempo, qualquer que seja, mas não deixem de fazer.

    Acho que as lembranças sempre perduram e delas as novas possibilidades. Tem muita gente bem intencionada por aqui, talvez falte um empurrãozinho pra alguns, ou simples palavras confortantes como as desse texto para os que já estão no caminho.


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