Cisne Negro – Imperfeições precisas.

E pensar que o cinema é irregular e eventualmente Hollywood se da o luxo de apresentar essas pequenas imperfeições ao grande público. Cisne Negro é uma obra prima imperfeita. Ele nos faz pensar que tudo pode soar esteticamente bonito e em termos cinematográficos, magistral. É quase um erro. Um erro muito bem elaborado e consequentemente, com muitos acertos.

Cisne Negro é um filme muito foda. Fui ver e fiquei impressionado com a voracidade em que as coisas acontecem. Tudo é muito intenso, tenso e sensível, demonstrando de maneira cruel os sacrifícios que os seres humanos fazem para atingir a perfeição naquilo que acreditam. O filme lida com esse limiar extremo. O limite do corpo, da mente e da alma.

A premissa do filme é simples e talvez por isso seja genial. É um recorte do cotidiano de uma bailarina que ao ser cogitada para representar a peça o Lago dos Cisnes (um balé dramático em quatro atos do compositor russo Tchaikovsky), se entrega de corpo e alma para conseguir o papel. O tema abordado é muito pertinente nos dias atuais mas não é novo. Nova talvez seja a forma com que Aronofsky lida com esse universo da dança e principalmente, relaciona com a linguagem do cinema. As câmeras dançam fazendo o par perfeito, o duplo com a bailarina que faz o duplo com ela mesma através dos espelhos que a alma lhe proporciona. A pergunta que fica é: será que existe um ser humano que consegue se expressar de forma precisa e convincente nos dois extremos da sensibilidade humana? Esse eu acho que é o desafio. Se a personagem principal consegue ser pura e meiga na sua essência ela tem todos os atributos para interpretar o cisne branco. Mas será que ela é capaz de se projetar para o outro lado e com a mesma desenvoltura atender as expectativas do cisne negro um lado obscuro e até então desconhecido???

É isso que o filme Cisne Negro tenta passar para o espectador. É uma imersão sensacional numa série de possibilidades e sentimentos. O filme é intenso e proporciona alegrias e tristezas, medo, raiva, pena, arrepio tudo ao mesmo tempo. Esse talvez seja o grande mérito dos grandes filmes, proporcionar um misto de sensações e possibilidades que vão muito além da leitura óbvia em termos narrativos. Saímos da sala confusos como se a roda de um automóvel passasse somente numa parte do nosso cérebro. Perdemos algo ali naquele espaço destinado aos grandes entretenimentos da indústria cinematográfica. Em pedaços é uma definição boa para descrever o que acontece com a cabeça de quem vê o filme.

Mas para conseguir tudo isso, tem que se despir dos sentimentos e se proporcionar as experiências que o filme apresenta. Apreciar o lado bonito e ao mesmo tempo imperfeito. Ver o limite com que as dedicações extremas proporcionam. O excesso de tudo que gera dor. Física e da alma.

Enquanto proposta de linguagem Aronofsky consegue tudo isso. As cenas com espelhos são sensacionais. A trilha sonora está perfeita. Com movimentos suaves de câmera ele nos encanta e com tensão e profundidade ele nos derruba junto com a protagonista. Depois de alguns instantes estamos totalmente imersos. Não vemos a superfície. É tudo confuso e obliquo. A morte é certa. Mas não uma morte qualquer. Uma ’Morte em Veneza’. Uma morte estética. Profunda, contundente e incrivelmente bela. Sensacional na sua essência e determinação. A historia de uma criatura que vai de um estremo ao outro em segundos e a cabeça se perde nessa transição e explode em prol de algo superior que é a arte. A arte no cinema.

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