Arquivo de junho \09\UTC 2016

Uma leitura plástica de Plástico no oriente

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Por Julherme J. Pires

Contém spoilers!

Nas últimas férias, eu estive em Ho Chi Minh City (a antiga Saigon), maior cidade do Vietnã, participando de um intercâmbio/projeto social. Eu e mais 13 intercambistas tinham como objetivo produzir um showcase do Vietnã ressaltando a cultura popular e as belezas naturais do país, sem restrição, o que encontrássemos pela frente. Trabalhávamos com diversas mídias, entre elas o audiovisual. Nós íamos em tours para outras cidades do interior do país e na volta desenvolvíamos o material. Nos primeiros dias de janeiro, após a primeira tour, realizei uma oficia de cinema com os intercambistas. Entre eles, pessoas da China, Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia, Nova Zelândia, Austrália, Itália e Brasil. Na atividade, discutimos sobre roteiro, planos fotográficos, ambiência sonora, trabalho em set…. E no final, ofereci uma proposta a eles: assistir a um filme produzido na minha cidade. Eles toparam e nós começamos a assistir “Plástico”, um filme sonoro de Roberto Panarotto e amigos.

Duas coisas interessantes precisam ser ditas sobre esses intercambistas, antes de eu comentar a exibição em si. A primeira delas é o hábito de consumo midiático deles, que não é nada diferente dos jovens brasileiros. Eles conhecem e assistem aos mesmos filmes que estão em cartaz nos nossos cinemas. Na Ásia, há claro, outras referências artísticos-culturais, mas em termos de distância midiática, estamos menos afastados do que antigamente, bem menos! A outra é que na primeira tour daquele intercâmbio, eles já haviam realizado e publicado um vídeo. Tratava-se de um “vídeo de férias”, com cortes frenéticos, trilha dançante, pessoas felizes, natureza em segundo plano. Ou seja, um filme que eu e você faríamos sem nenhuma ambição artística. Os filmes-referência que eles tinham são prioritariamente americanos, cheios de diálogo, lógicas prontas, sem muito espaço para criação subjetiva.

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Agora sim a exibição. “Plástico” é um filme sem diálogos, sem uma lógica acabada, com muito espaço para criação subjetiva. Além disso, é uma obra que tem um ritmo deslocado dos “filmes de shopping”. Achei que a exibição ia no mínimo entediá-los e o ato de ver o filme seria dividido com as telas de celulares. Mas, durante a exibição fui contrariado. Todos assistiram prestando a máxima atenção e os únicos comentários aconteceram em função das cenas. A primeira metade do filme é mais difícil, quando ainda não temos a personagem feminina. Mas nem a quase interminável cena da geladeira os tirou do foco. A cena dos iogurtes com certeza foi a mais comentada. Aquele jogo simbólico em outras camadas da linguagem mexeu com eles.

Eu tive a certeza de que aquela exibição teve repercussões posteriores quando vi a edição do vídeo da segunda tour. Logo de cara, na primeira imagem, uma referência ao plano demorado de abertura de “Plástico”, uma imagem belíssima do nascer do sol numa das baías mais belas do mundo. O vídeo é mais introspectivo e tem a interação com o mar sua principal subjetividade. Além disso, a localização de um personagem principal também se destaca, numa metáfora com uma “narrativa submersa”. A trilha também saiu da road music e entrou numa faixa mais subsidiária, juntando-se ao som da água como principal percursor sonoro. Nos vídeos seguintes, “Plástico” continuou ali presente, servindo de referência prioritária e inspirando a construção dos vídeos. O principal objetivo daqueles vídeos eram participar de um showcase que mostrasse o Vietnã de uma maneira não atrelada a Guerra. Sim, todos lembramos da guerra ao ouvir falar do país (né!?). Nesse sentido, “Plástico” participou da construção estética de uma nova visão do país.

De que plástico(a) estamos falando?

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Assisti a “Plástico” pela primeira vez na exibição de estreia no SESC de Chapecó. Me chama atenção a relação de pertencimento da obra. Assim como vemos em outras obras do Roberto, como na Repolho ou nos Irmãos Panarotto, a relação íntima com Chapecó e a criação de uma dimensão mítica da cidade. Ela acaba sendo uma personagem importante da história, porque é nela que a trama se realiza e é dela que se alimenta. O fato de o rapaz não conseguir pegar um ônibus nunca, não automaticamente deve ser levado como uma crítica ao sistema, óbvia, mas gera uma série de camadas subjetivas, em trânsito entre a dimensão personagem e o contato com a cidade. É difícil pensar num sentido comum, justamente pela natureza do filme, que como uma obra bem construída, destrói a hegemonia pronta e abre as brechas para as subjetividades do público a colonizarem.

Na terceira vez em que assisti, numa noite comum deste outubro, ainda tinham coisas para perceber e para questionar. “O que ele quer dizer com aquele peixe?”, fico pensando. Se você vincular a imagem do “peixe fora d’água” ao personagem principal, estaria fazendo um atalho de interpretação, que na minha concepção não é tão fácil assim. Uma das últimas imagens são garrafas de plástico descendo o rio. Por que elas estão no rio, enquanto o peixe está fora dele, sofrendo? Talvez uma análise semiótica leve a alguns resultados, mas não acho que é na ciência que esse filme se ofereça para análise. Sim, na nossa própria relação com ele e com a cidade.

O tal filme sonoro

A trilha musical e a relação dos quadros com os ruídos (noise) são aberturas para se pensar no que ali está se passando. Na cena dos iogurtes, o vazio sonoro na atmosfera projeta uma cena completamente vazia. Mas é na música que o cômico acontece. Se antes, na cena do leite, temos uma trilha viva e alegre, agora temos um aspecto circense. Apesar de a ênfase discursiva estar no som, os elementos visuais são indispensáveis. E por isso, a minha cena favorita é a dos iogurtes. Esta que já e a segunda cena de sexo do filme(!). Até àquela altura, o desenvolvimento afetivo do casal estava em crescimento. Esta é a primeira vez em conflito. Desta vez, ouvimos (e vemos) a superação do amor, o desgaste do relacionamento. O ato do consumo do iogurte numa marcha muito lenta, como dimensão do tempo em análise, pode nos levar a pensar sobre isso.

Estas leituras do filme são possíveis por sua abertura e pelo não acabamento narrativo. Justamente por não encontrar um produto pronto e que tivesse essa relação artística com Chapecó, propus ao próprio Roberto essa possibilidade de exportar o filme. Lembro muito bem como ele foi recebido e apropriado por aquelas pessoas de diversos países. A conversa e os insights que rendeu. A cada vez que assisto o filme, novos sentidos são acrescentados a minha percepção. Não de uma forma sedimentada, mas muito mais de uma forma plástica, que é simplesmente corroída pelo tempo e pelo espaço.

Os vídeos produzidos no Vietnã a que me referi podem ser assistidos aqui:

https://www.youtube.com/channel/UC61_YlRV3tZDYvLCbAL12lQ/feed