Arquivo para 11 de julho de 2016

Recortes fortuitos de um encontro que possivelmente não aconteceu.

Por: Roberto Panarotto (em diálogos com Júpiter Maçã)

Jupiter - Panarotto 01Nenhuma foto, vídeo ou texto se comparam ao momento vivido. Nenhuma foto reproduz o fato e nenhum momento é tão eterno que não possa ser apagado.

E as melhores histórias?

Nunca poderão ser contadas! Talvez recuperemos o sentimento em alguns resquícios disso ou daquilo. Reinvenções. Recriações. Meras reproduções…

Por isso que é tão estranho e difícil falar de algo ou alguém, se referindo a algum fato ou alguma coisa com total precisão.  O homem em sua vã insignificância até tenta divagar ou encontrar palavras ou formas para descrever. Mas é impossível.

Começo o texto falando do abstrato. Do infinito. Depois dou meia volta, numa lógica “Mad Max 4 de concepção de roteiro” e tento escrever sobre o meu último encontro com Júpiter Maçã. Quando comecei escrevendo este texto, não sabia que seria o último. Foi na última apresentação que ele fez em Chapecó. Dois shows, um na sexta feira com a Banda Repolho e outro no sábado no teatro do SESC pelo Projeto Unocultural. esse encontro que me refiro aconteceu no sábado a tarde, momentos antes da apresentação do SESC.

Nos reunimos para falar de cinema, e o Júpiter estava num momento um pouco alterado, mas acredito, na melhor de suas faculdades: a criativa.

Refiz o texto acima, de introdução, mas procurei preservar o texto abaixo como ele foi escrito ano passado.

[11 de julho de 2015 – 16:15 min]

Começo o texto da seguinte forma:

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É sempre assim com ele, não importa onde, como ou porque a explosão se faz presente e contamina, inspira, emociona. Júpiter sempre aparece cercado de sinônimos de alguma coisa que ainda não entendemos. E talvez nunca entenderemos.

O que me parece claro é que  conversar com Júpiter é inspirador. Perceber como ele transforma uma festa junina em Nouvelle Vague ou pensa o cotidiano como se fosse um filme do Woody Allen é muito mais do que interessante. Essa definições estão presentes na sua nova incursão cinematográfica.

Tenho a  impressão que esse filme que ele está rodando, está sendo rodado há muito mais tempo. E na realidade até está. O filme acontece em sintonia única. Um instante entre uma coisa e outra, onde ele atua, seja como diretor, ator ou músico… onde tudo acaba sendo intenso. Ao mesmo tempo, a exemplo do que ele sempre fez com a música, acaba motivando e contaminando as pessoas ao seu redor, de maneira convincente e incisiva. Mesmo que você não entenda direito o que está acontecendo naquele momento, não importa. Você com certeza vai sentir algo. ele faz com que você se sinta parte daquele universo. Já diria Plato Divorak – “É impossível dizer não ao basta”. É difícil dizer não ao vício, a vida, ao silêncio… ou negar as vicissitudes da vida.  Cogitar a negação, já me parece algo insano. Não se nega Júpiter Maçã. Como não negamos o infinito. E muito menos as percepções aleatórias que isso tudo nos proporciona.

Consciência? Coincidências? Com certeza não!

A consciência do infinito criativo de Júpiter Maçã não tem a ver com o acaso.  É uma loucura plena e proprietária das faculdades mais profundas, autorais e nesse caso totalmente empíricas. Uma espécie de conhecimento nato que paga seu preço a toda hora e a todo custo, por tudo o que se faz.  Tudo acontece em fast-forward. Avançam em velocidade máxima e retornam em marcha lenta.  É nesse momento de fusão, entre uma coisa e outra, onde as imagens se encontram que descobrimos que o lúdico combina com o psicótico, intermitentemente.

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Júpiter dizia pra mim quando eu o lembrava das horas: – Esquece o show business Panarotto. Nós temos que terminar o filme. É por isso eu estou aqui, acabei de ser expulso. Me pediram férias. Eu estava num apartamento amaldiçoado convivendo com energias pesadas. Eram três horas da manhã e eu seguia obsessivamente declamando textos poéticos em alemão à luz de velas. É logico que o barulho incomoda quem quer dormir. Mas eu tenho que terminar o filme.

Uma obsessão ultrapassa todas as barreiras. Vence todos os obstáculos.

O fim, do filme?

Um plano aberto num cemitério de uma cidade do interior.

A protagonista caminha desconcertadamente e de forma aleatória, encontra o tumulo de Robert Hofmann e descobre que ele realmente está morto. Ela grita e desmaia. Créditos lentos com uma música melancólica e cadenciada.

A cena que era pra ter sido filmada em Chapecó, não foi feita. Talvez nem seja. Ficou a narrativa de um filme de duas horas em minhas memórias. Pobres memórias que com o tempo também se perderão. Tento registrar, escrever, fotografar… tentativas imuteis de prorrogar as memórias.

Síndrome de Andy Warhol? Perguntei – mas vão ser diversos curtas?

Júpiter: – Não Panarotto é o meu longa. Estou gravando, está tudo aqui nesse celular barato. Já tive um outro, que era melhor com mais capacidade, mas não importa… você vai me dizer, ah! mas e os pixels e não sei mais o que. E eu vou te responder: fodam-se os pixels! Estou editando o meu vídeo com um cara que tem síndrome de mendigo. Ele tá falando contigo e de repente, sem mais nem menos, te pede dez pilas, umas moedas ou um sanduíche.

O filme acontece o tempo todo em sua cabeça.  Tem um roteiro. Está tudo ali. Ele repete o roteiro. É mais fácil ouvir ele falando do que entender o que realmente está acontecendo pelos registros que me são apresentados e que vão confirmando as divagações.

Jupiter: Pena que não temos um piano se não poderia te mostrar a música de abertura. Se chama “Tema de Jane”.

Ele posiciona as mãos no ar e entoa solfejando nota por nota de uma belíssima composição. Melancólica, introspectiva e arrebatadora, canção que segundo ele abre o filme que está sendo feito.

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Júpiter: (interrompendo o solfejo e complementando a cena) Agora vem o título do filme: Jane’s Nightmare.

Gravamos uma cena para esse filme: no terraço do Lang Palace Cotel em Chapecó!

Eu: Aleister Crowley. A besta.

Ele: Robert Hofmann. Violinista desencarnado que fica o tempo todo tentando afinar o seu violino. Mas ele não consegue. Ele está morto, mas ainda não sabe.

Júpiter: Era pra ser Woody Allen, mas ao ver as cenas percebi que está tudo um horror, está virando um Polanski.

Eu: Quando se tenta fazer um Woody Alen e erra, vira um Polanski.

Ele ri.

Rimos.

Olho pra ele e digo:

O seu filme é uma merda! (É a introdução da nossa cena). O terraço se torna pequeno. Circulamos enlouquecidamente e verborragicamente declamando um texto que não existe. Um improviso.

Quando terminamos o improviso, olho em volta e percebo pessoas nas sacadas do edifício próximo. Talvez estejam filmando também. Talvez seja publicado no youtube como uma outra coisa. Uma outra versão, num outro ângulo de outro contexto. A história sendo contada de outra maneira.

Um plano aberto (ao ar livre) com dois respeitados senhores, num terraço, divagando sobre sentimentos aleatórios e uma possível síndrome de panico provocada por uma  piscina sem água.

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Paramos para rever a cena. Observamos os pixels de uns frutos recém colhidos em sistema digital precário proporcionados uma mente acesa, iluminada… talvez nem tão intacta, e nem sei se precisa. Navegar é preciso, ter a mente intacta… nem sempre é possível.  O maior entorpecente é a vida. Sem a percepção exata do que é ou foi real. Se é que ali a realidade existe. A pureza e ao mesmo tempo insanidade de uma mente inquieta em relatos de suas mais recentes experiências. Entre elas uma possível desencarnação. Tudo misturados com rituais, fantasmas, presença de espíritos em profecias de morte.

Jupiter me confidencia: Vou morrer daqui há dez anos em frente ao Dakota em Nova York, mesmo hotel que morreu o John Lennon. Um plágio de uma morte? Pode até ser, mas é o que diz na profecia. Eu vou estar lá, e vou morrer no mesmo local.

O seu novo filme já tem nome, e trilha, e todas as cenas. É um longa. Ele filma e edita tudo de maneira interessante.  a edição acontece ao vivo e em tempo real, na medida que ele vai gravando tudo com um celular. (aquele barato que é inferior ao que ele tivera antes)

Júpiter: Eu não entendo nada de tecnologia. Não sei se tem 200 megas, 300 megas… Mas não importa, o filme está acontecendo todo dentro desse celular.

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Eu: Só o celular?

Júpiter: Não Panarotto, tem imagens em high também. Vai ser uma mistura de estilos, o filme tem uma continuidade e está sendo editado por um mendigo. Ou melhor alguém que se parece com um mendigo, e que sem mais ou menos olha pra ti e pergunta: – Tu tem dez pilas pra comprar um sanduíche?

Ficamos de gravar a cena final. Seria no cemitério. Precisava de uma atriz. Ele sugere uma universitária. Com perfil de atriz amadora.

Jupiter: Porra Panarotto, você conhece as universitárias. Sabe do que eu estou falando.

Eu sempre concordando com tudo. Pensando, tentando entender… certamente aprendendo com essas possibilidades.

Não sei se essa conversa faria sentido se fosse de outra forma ou com outra pessoa. Mas é o Júpiter né.

ele olha pra mim e diz:

Ro-ber-to Pa-na-ro-tto diretor italiano. (com sotaque carregado de um possível colono inglês)

me divirto com a possibilidade e não tenho como negar a descendência. Apesar de preferir os diretores franceses (mera pretensão minha). Sei que nunca chegarei aos pés de coisa nenhuma. Nem sei se eu quero. Prefiro transitar em outros planos.

Invadimos a suíte presidencial.

Eu mais ele: ambos ouvíamos vozes.  Para mim as vozes eram reais. Para ele, espectros de algo assustador que poderia atravessar as paredes e invadir o filme.

Eu: tentando registrar tudo com dois celulares.

Ele: tentando me convencer que aqueles vultos eram reais.

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Eu: O cinema tem que ser assim mesmo. Invasivo. Furtivo eu diria, de forma intensa, se apropriando de uma cena aqui e outra ali. Roubando a realidade aqui e ali e enquadrando de forma poética. Determinando posteriormente o ritmo e o tempo de duração de cada sensação. Um tempo que urge e que nos será roubado também. A qualquer momento. A qualquer minuto. Sem que a gente perceba ou realmente queira isso. No fundo todo mundo quer… fazer cinema e ou viver o momento da tela. Os quinze minutos de intervalo entre a primeira e a segunda parte do jogo, como diria Andy Warhol. Um compacto com os melhores momentos. Lado A e Lado B. duas singelas canções que poderiam ser executadas em momentos distintos.

E o Júpiter incorpora isso em seu novo filme. Quinze minutos aqui e dez ali, cinco mais adiante, uma fala, uma pausa e uma trilha sonora. Gravado e reprocessado, estilizado, pixelizado. E tudo isso, que nesse momentos são apenas fragmentos de uma história, vai virar um longa. Editado por um mendigo.

Mas ele é um mendigo de verdade? pergunto depois de a piada ser repetida pela terceira vez.

Júpiter: Não Panarotto, ele tem síndrome de mendigo. (E ri compulsivamente).

Equipamento pra fazer filme? Conheci varias pessoas que deixaram de fazer filmes porque acreditavam não ter o equipamento certo. Isso é pros fracos. Estrutura? Cenário?  Figurino? Continuidade? Roteiro? Espera aí, roteiro tem. Ele me contou no mínimo umas duas vezes, no máximo umas dez. O roteiro pulula em sua cabeça o tempo todo. Como uma sinfonia repetitiva. Filme se faz com ideias. O restante é só detalhe. Complemento de algo que se torna necessário para levar a ideia adiante.

Sem câmera…

Não perca tempo lendo esse texto. Talvez ele não faça sentido para quem olha de fora da redoma de vidro martelado. Sim, podem ser apenas vultos, espectros de algo totalmente irreal, recém filmados e tecnologia precária.

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Não se iniba com a possibilidade do non-sense. Ele pode ser tão divertido se você se entregar ao infinito em todas as suas vertentes. Sempre que possível. Mesmo que você não esteja mais ali, e mesmo que você esteja, cada um vai contar aquilo tudo do seu jeito.

Este é um texto de ficção por mais que pareça uma crônica. Tudo aqui foi reinventado a partir de uma conversa que aconteceu, mas que talvez nunca tenha acontecido.  (obs: em ajuste  posterior, e que nunca mais se repetirá pelo menos nessa dimensão)

Ah se não fossem os registros. Um estado puro e bruto de algo que está sempre prestes a ser revelado. Mesmo que na pior imagem e na menor das resoluções. A melhor das faculdades do Jupiter Maçã é a criativa. Das artes. Do espaço. Do infinito. E nesse sentido, não se compara ao estado físico ou psicológico. Tudo ali é intenso e ele se proporciona tudo isso. Já tive muitos momentos ao seu lado. Em parcerias musicais, cinematográficas ou apenas trocando uma ideia… tomando um sorvete. E em todas elas o que vi sempre fui um ser humano extremamente gentil e criativo.

Aprendo sempre que me encontro com ele. Em alguns momentos até me esforço para entender a sua loucura. As vezes até acho que consigo, se é que isso é possível. Ou necessário.

Jane’s Nightmare

Uma possível sinopse: é um filme repleto de atores em colapso, interpretando novas maneiras de sobrecarregar apartamentos.

O que me restou: Um frame em baixa resolução com upscaling em azul sobrecarregado. Ao fundo risos em ecos intensos e distantes. Ao fundo, uma sensível melodia. Olhando de longe parecem lágrimas.

Tanks Júpiter. Love Júpiter!