Arquivo para fevereiro \24\UTC 2011

entrevista sobre cerveja.

Demétrio Panarotto, Guto Lima e Luiz Henrique Cudo falam para o Elefantebu sobre o filme “Cerveja Falada”.

Confira aqui: http://issuu.com/elefantebu/docs/fanzine_49

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Bela Lugosi is dead (e enterrado) (parte 3)

 

Por Roberto Panarotto

Esta é a terceira parte de um texto coletivo (em dupla) em três partes. Ou seja é uma trilogia de três textos falando sobre a Trilogia Lugosi que foi apresentada no SESC na semana passada em Chapecó. Só me propus a escrever o terceiro texto porque ninguém tem paciência de ler tudo até o final. Se você está lendo esse texto, por favor leia os dois primeiros antes (http://www.andretimm.com/blog). E ao contrário do que acontece na Trilogia Lugosi, o melhor não ficou para o final.

Tenho memória curta. E com o passar dos anos a minha memória vai ficando mais curta. Quando ouvi falar que o Renato Turnes estaria em Chapecó com uma peça de teatro pensei se tratar da peça que há aproximadamente dois meses atrás tinha lido algo no jornal. E na verdade era. Nesse sentido a memória não me traiu. O que eu não sabia ou não lembrava é que a peça era parte integrante de uma trilogia. A peça a qual me refiro, “O homem que imita a si mesmo” é adaptação do texto de Fernando Bonasi. Pensei comigo e com a minha memória fotográfica não praticante que deveria ir ver.

Acabei não indo ver as duas primeiras partes da trilogia, por compromissos alheios a minha vontade. Fui acompanhando as peças através dos comentários das pessoas que eu conheço e que foram ver. Mesmo não vendo as outras duas partes ouso afirmar com precisão de que a terceira parte é a melhor das três peças. E os motivos são simples e em princípios claros, estabelecidos a seguir.

O principal motivo de eu afirmar que a terceira parte é a melhor são os elementos culturais que me são familiares e estão dentro do meu campo de visão e atuação.

Enquanto proposta teatral fica difícil analisar. Comecei mal. Estava no hall de entrada do SESC e comecei a perceber que só tinha gente do teatro no local para ver a peça. Por motivos óbvios, resolvi ficar calado. Não vou me atrever a comentar sobre o teatro. Já fiz teatro uma vez, mas e quem não fez??? É que nem desenhista dizer que desenha desde que era pequeno. Todo mundo quando é pequeno, desenha. Mas mesmo assim, nessa minha ignorância teatral, consegui perceber elementos e referencias culturais que me são próximas e isso fez com que eu de cara já me empolgasse com o que eu estava presenciando. Tudo se configurava de forma muito perfeita. Um time perfeito, a atuação forte e marcante e uma performance digna de qualquer filme de terror (no caso, ao vivo, o que é muito mais difícil). O Bela Lugosi deve estar puxando carvão pro diabo com um sorriso estampado no rosto.

A direção artística da peça pode ser outro motivo bacana de se destacar, mas isso não é um diferencial em relação às outras duas (pode ser em relação às peças em geral que vemos por aí), até porque é produzida e dirigida e atuada pelas mesmas pessoas. A dupla Jefferson Bittencourt e Renato Turnes se superou. Tudo está no seu devido lugar proporcionando o clima ideal para essa imersão na alma da personagem.

O segundo ponto é que o texto é muito foda. Tudo bem. Um texto foda não faz a peça ser foda. Daí resgatamos todos os aspectos da direção artística do espetáculo que valorizam o clima e o texto cresce e adquire proporções incríveis. E isso é extremamente difícil de fazer. A maneira encontrada de apresentar o texto vai te envolvendo e chega um momento que tu não sabe mais quem é quem o que é o ser que está ali. Vertigem total. Cheguei a pensar por alguns instantes que era eu que estava no palco. Fui sugado para dentro da peça. Por pouco não levantei e comecei a gritar também. Desconforto em relação ao que se apresentava. É impossível não mergulhar na alma da personagem principal ou se identificar com os seus momentos mais intensos de insanidade. Com o texto de Bonassi em mãos, Turnes e Bittencourt se divertiram colando fragmentos de obras clássicas e trechos de filmes de terror B da década de 40 em um mosaico de citações que vão de Ed Wood à Shakespeare, de Poe a Bram Stocker e isso gera perspectivas. Vou apontar mais detalhes sobre isso no parágrafo a seguir.

O parágrafo a seguir, no caso esse, é o terceiro motivo de eu achar a terceira parte da trilogia a melhor. Pelo menos pra mim, um dos elementos mais sensacionais é esse híbrido de teatro e cinema. A partir de agora vou revelar momentos importantes da peça. Se ainda não viu, não leia. A relação estabelecida com o cinema (pra mim uma verdadeira paixão, hobby e profissão em alguns momentos) acontece de forma sensacional. Tudo bem que a trilogia já faz referência no nome da peça, citações e afins, mas a relação não fica somente nos elementos subjetivos. Tem um momento que tudo explode num híbrido de linguagens e possibilidades. Uma sincronia impecável. E aí o “duplo” acontece não somente enquanto personalidade (confusão na cabeça) do protagonista, mas enquanto mistura de linguagens hora cinematográfica, hora teatral. Um está de frente para o outro e um reflete o que é o outro. Se o personagem não sabe quem é, posso afirmar que o público pode não identificar a linha tênue entre o teatro e o cinema, entre expectador e atuante. A coisa acontece (mais ou menos) da seguinte forma. Ao se aproximar do final, o texto tem uma pausa genial, uma espécie de fim interrompido. Renato para de falar, olha para o público, que esta totalmente imerso, e agradece. O público bate palmas, levanta emocionado e Renato retoma a fala como se fosse agradecer aos participantes, patrocínios etc. Ali não é mais o personagem, é o ator. E quando tu percebe, ele está de volta no personagem rindo da cara de todo mundo. Uma grata surpresa. Pensei comigo mesmo. Que legal, terminou bem. Ao pensar isso nem sequer imaginava o que estaria por vir. E quanto tu acha que não vai mais ser surpreendido eis que a vida se torna arte e o teatro vira cinema e tudo vira música. Um réquiem lindo de uma produção linda que encerra a peça deixando o palco vazio e a sensação de termos presenciado algo de outro mundo. Fiquei chocado, no mínimo, e perplexo por alguns dias. Passado mais de uma semana ainda está tudo borbulhando na minha mente. A peça me proporcionou muitos momentos de reflexão. Queria que não tivesse acabado…

Na verdade não acabou. Está começando uma turnê pelo estado apresentando a trilogia com apoio total do SESC. Se estiver passando pela sua cidade, vai assistir.

White Stripes – Puerto Iguazu – 26 de mayo – 2005