Arquivo para novembro \12\UTC 2014

“Sai de casa para assistir Plástico e voltei ouvindo Ry Cooder”

texto por: Valdemir A. Oliveira – Professor da ACHJ (Unochapecó) – mestrando em educação.

plastico - filme 02

Havia muito tempo que não saia do conforto de meu sofá para ir ao cinema ou assistir alguma produção quer fosse teatral, poética ou qualquer outra. Alienação… comodismo… preguiça… escolha você. Entretanto a possibilidade em assistir Roberto Panarotto quebrou a rotina. “OPA!!!!” Característica do universo linguístico chapecoense e oestino a interjeição, assim colocada, não o está por acaso… E foi assim que me senti… OPA!!! “tudo bem e você”, “me desculpe”, “espanto”, “tem algo diferente por aí”.  Em “Plástico” a irreverência peculiar de Roberto Panarotto cede lugar a uma sensibilidade própria daqueles que respiram e transpiram arte pelos poros sem muito esforço. O estilo de “quase sempre”, a bermuda, a camisa grande e a barba também, embora embranquecida… grisalha… experiente… mais “velha”.

Creio, arriscando no equívoco da suposição, que seja isso, o tempo expõe em “Plástico” um diretor desnudado, uma nudez universal e um sentimento de retorno ou quem sabe de pertencimento.  Se a personagem da ficção interpretada por Kassio Canan vive o drama entre as quase partidas, em quase lugares o diretor parece, aos meus olhos, retornar ao lugar de onde insiste, mesmo que “negado” muitas vezes através de suas irreverências, em permanecer. A sensibilidade com que Panarotto produz o filme conduz o telespectador, guardadas todas as proporções, a Holden Caulfield de Salinger na primorosa obra literária “O apanhador nos Campos de Centeio”. É como se a personagem, movida por um constante estado de intermitência, procurasse romper com a inocência que insiste em permanecer mesmo que a contragosto. A cidade que não se faz cidade, os edifícios que brotam “transgênicos”, o arfar do peixe que definha, a paixão “inventada”…  angústia, a monotonia no lamber repetitivo da proteção “plástica” do pote de iogurte… a doce, melancólica, poética e, as vezes, sutilmente satírica trilha sonora, um quase amor “Lolita” de Nabokov.   Assistir “Plástico” é como sentir um saco plástico, que nas brincadeiras de criança permitia, ao vendar os olhos e impossibilitar a entrada do ar, a sensação de ser “outros” que desejam furiosamente sair, mas insistem em ficar. Plástico não é um filme sobre uma história tão pouco uma produção “caótica”. Ao contrário, está no universo daqueles textos que nos fazem sentir o tempo todo como seres de fronteiras, nas margens e nunca nos centros. Se em Lolita Humbert rotula a si mesmo como o “louco” que toma para si a infância de Dolores, em “Plástico” a personagem de Kassio ao deixar Isabel e assumir a partida, metáfora da “morte” ausência anunciada, liberta também os outros, o tempo, o lugar de uma presença que não pertence a lugares ou tempos marcados e definidos, quem sabe aí resida a universalidade da produção. Plástico nos faz perceber que estar nas fronteiras significa também a possibilidade de estar em todos os lugares ou em lugar algum, ora protegido ora desprotegido, ora em êxtase ora em profunda desilusão. A monotonia nos pontos de ônibus incrivelmente desabitados aos olhos da personagem,o ônibus que jamais chega… a espera angustiante. A descoberta do amor, a rotina… o partir, mais uma vez o peixe… a água e a geladeira lugar em que buscamos algo que nunca está. O andar. Plástico, em meus olhares, é o “útero” que gestou a “maturidade intelectual” de Roberto Panarotto, é como se a obra representasse metaforicamente, através de ações e de um enredo beirando o psicodelismo, as descobertas e desencantos do próprio autor magistralmente apresentados na Sinopse.

plastico - filme 01

“Eu queria que aquela sensação durasse eternamente. Mas não é assim que acontece. As coisas nem sempre saem como planejamos. É assim com todo mundo. É assim com você. E comigo foi assim também. Quando os jardins se bifurcam optamos sempre pelo lado errado.”

Em 31 de outubro de dois mil e quatorze no teatro, em algum lugar, passou Salinger, passou Wenders, passou Lynch, passou Panarotto, passamos Nós, passou “Plástico”. Fiquei tomado por profunda e bela comoção.

Valdemir A. Oliveira – Professor da ACHJ (Unochapecó) – mestrando em educação.

Epopeia – A vida é agora!

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Por: Roberto Panarotto

O rock e o cinema sempre flertaram de maneira plena. Não à toa as duas formas artísticas se unirem como consequência de algo que parecia ser, muito mais do que lógico, inevitável.  Desde os primórdios do rock essa relação já se estabeleceu gerando ótimos e grandes resultados. Com o acesso facilitado as novas tecnologias de produção o rock chapecoense também passou a acompanhar esse fluxo e pensar dessa forma. Se antes tínhamos dificuldades de estabelecer uma proposta visual em movimento, hoje isso se tornou algo muito mais acessível.  Seja através do registro ao vivo, videoclipes ou então um filme musical. Quem está se aventurando nessas novas possibilidades audiovisuais é a banda Epopeia que lançou recentemente em DVD “A Vida é Agora”, gravado e produzido em Chapecó.

A proposta foi simples e legal: realizar/registrar uma apresentação com poucos convidados (amigos em geral) em um local bacana. O diferencial está na forma como isso foi feito, gerando um resultado sensacional. O cenário dessa incursão musical cinematográfica foi a mística e já lendária casa dos sete andares. Construída em meio às arvores num morro no interior de Chapecó, a casa foi pensada de maneira totalmente orgânica, espontânea, com materiais recicláveis e respeitando em sua estrutura/essência o meio ambiente. Da estrada de terra, fica difícil de ver a casa, mal conseguimos ver o pico mais alto que é um píer, que quando nele, proporciona uma vista sensacional.

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A gravação aconteceu num domingo a tarde em meio a natureza e o clima não poderia ser melhor. Fui um dos convidados e pude acompanhar uma boa parte desse processo todo. Mais do que estar presente, sempre é legal ver o que se capturou em essência e como se transformaram aquelas horas e horas de gravações. Nesse sentido o olhar atento das câmeras desempenharam um papel interessante porque foram utilizadas com uma liberdade total ao explorar não somente a banda, mas esse clima de sensações que se criou em torno. Uma perfeita harmonia entre a natureza/casa/banda/musica/sons. Foram registradas oito canções, dentre as quais, três novas composições “algo novo pra lhe dizer”, “diferente de você” e “a vida é agora!”. Eles entenderam a lógica do local e se (nos) proporcionaram essa interação. A câmera ouve um som e adentra o portão de maneira furtiva como se instintivamente seguisse o fluxo natural do som. Um clima total de paz e tranquilidade, abalado apenas pelos acordes mais pulsantes dos sons que urgem em meio a floresta. Da estrada percebíamos os gritos do rock em meio a natureza que acabavam formando uma paisagem, como se tudo fizesse parte do mesmo ser. A Epopéia conseguiu traduzir um estado de espírito muito bom, trazendo esse lado mais sensorial da música em imagens, transpondo as barreiras e possibilitando outro tipo de interpretação e sacações.

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O cuidado com todos os detalhes é que fazem a diferença quando vemos o resultado final. E fica difícil falar do DVD sem se referir a espacialidade como um todo. Essa fuga dos meio normais e tradicionais de se realizar uma apresentação é apresentado de forma muito bacana nesse novo lançamento do Epopeia, uma espécie de “live at Pompéia” chapecoense. Traduzindo a essência da banda e também de um lugar fantástico e quase surreal que é a casa dos sete andares. Complementares as relações estabelecidas e não poderia soar de forma diferente. Não poderia haver casamento melhor. E como eles sempre dizem, que a epopéia continue sempre receptiva e incorporando novas possibilidades.

ouça aqui:

https://soundcloud.com/epopeia

http://epopeiarock.blogspot.com.br/

http://bandaepopeia.tnb.art.br/