Arquivo para fevereiro \23\UTC 2013

“Clip” novo do Beck/Bowie.

beck ACB

Na verdade não é só um clip, é uma nova proposta, uma experiência interativa audiovisual em 360°. A música é um cover do David Bowie. Nada mais apropriado, já que o Bowie volta ao centro das atenções ao anunciar um novo álbum depois de dez anos de silêncio. A música Sound and Vision é do álbum Low de 1977. É legal porque além da releitura musical, Beck reimagina/reorganiza/re-tecnologiza a ideia de “sound and vision” através de um projeto chamado Hello Again.

Confira aqui a experiência:

http://loadbalancer.beck360-production.com/main/beck360.html

Aqui você confere uma matéria que mostra o processo criativo e o desafio da materialização disso tudo.

http://www.brainstorm9.com.br/34620/musica/beck-participa-de-hello-again-novo-projeto-da-lincoln/

Aqui o vídeo do clip no youtube (Sem possibilidades interativas).

BOWIE.

Na edição de fevereiro a Rolling Stones traz uma matéria bem legal falando sobre a volta do Bowie. ( http://rollingstone.com.br/edicao/edicao-77/onde-ele-esta-agora) Além de entrevistas antigas com o próprio Bowie, o foco da matéria esta na conversa com o produtor Tony Visconti sobre o novo álbum. O produtor revela todos os segredos do novo disco de David Bowie

No programa Metrópolis  o diretor fala sobre o novo clipe do Bowie.

http://mais.uol.com.br/view/xiddtuwnvlqs/metropolis–diretor-fala-sobre-clipe-novo-de-bowie-0402CD993560DC914326?types=A&

Aqui você vê o novo clipe do David Bowie – Where Are We Now?

Se você não conhece o Bowie. O programa Metrópolis faz um rápido retrospecto.

http://mais.uol.com.br/view/xiddtuwnvlqs/metropolis—david-bowie-volta-depois-de-10-anos-0402CD9A376ED0914326?types=A&

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Trilogia Lugosi – Uma criatura?! Vários Criadores…

EM BERMEIO!!! Texto com spoilers sobre a Trilogia Lugosi (http://www.trilogialugosi.com/) . Tentei fazer um papel Norman Battes/taxidermista dissecando tudo e empalhando pra ficar mais bonito. Pra variar acabei não terminando no “tempo certo”. Acabou ficando muito longo e era para ter sido publicado em setembro passado. Lendo agora, soou meio pretensioso. Mas não era essa a ideia. Enfim… taí!!! Para quem se aventurar, ótima leitura.

Divagação inicial (aconselho a pular essa parte)

Não sei a “real” definição da palavra criatura nos dias atuais. Mas pensar numa criatura há muitos anos atrás era algo estarrecedor. Os séculos de escuridão trouxeram muitos medos e consequentemente muitos mitos, lendas, fantasmas e assombrações. Monstros e demônios. O mal era externo. Acontecia em torno. Não era pra ser visto. Tinha que ficar no escuro. Num eterno isolamento. Se viesse a público seria apedrejado. Os camponeses não entendiam quando criaturas diferentes, horrendas, deformadas apareciam em sua frente. O medo do desconhecido. Paus e pedras. Quanto mais obscuro, mais despertava a imaginação… Imaginar nem sempre foi algo considerado positivo. Associado a criatividade nos dias atuais, já foi visto como loucura ou delírio. Insanidades produzidas por ninguém menos que seres humanos e suas eternas insignificâncias perante o mundo. Os tais mortos insepultos apodrecendo perante esse céu imenso, como diria Ingmar Bergman.

Victor Frankenstein ficou famoso por tentar entender os mistérios da criação. O ser humano sempre foi um pouco sádico nesse sentido. Sempre procurou entender os domínios desses universos que nos aterrorizam. E a cada década o terror se faz presente de maneira tão diferente. Criar algo nos dias atuais parece algo tão estarrecedor por si só. Pensar ficção/terror nos dias de hoje é um exercício difícil. Os Frankensteins estão em clinicas de cirurgias plásticas, na TV, sentados ao teu lado no ônibus. Vemos todo e qualquer tipo de aberração que surge no nosso cotidiano e que se fazem presentes de outra forma. O que antes era excluído da sociedade, hoje começa a ganhar seu espaço e aos poucos passa ser visto como algo comum.  Comum é um termo engraçado hoje, porque o diferente passou a ser comum e o comum ainda mais imperceptível. As novas gerações misturam tudo e não conseguem distinguir nada. Surgem outras nomenclaturas para dizer as mesmas coisas. Nomes bonitos e hypados para demonstrar que o ser humano evoluiu. A mídia cria Frankensteins através da uma pseudo classe artística ou ate mesmo nos folhetins reais ou ficcionais. Vivemos no século do politicamente correto. O bonito ou feio é relativo e tudo aparece no novo programa da Xuxa ou no medieval Domingão do Faustão. Os seres bestiais que urravam ou pronunciavam palavras incompreensíveis e hora eram assustadores, horas motivo de riso, hoje estão nos reality shows na TV. Vide o caso Sergio Malandro com o seu vasto vocabulário de yé yé e gluglu e hás. Se ele estivesse num poço escuro seria aterrorizante. Se tivesse aparecido na aldeia próxima ao castelo, seria apedrejado, mas como nasceu no século 20 tem um “reality” no Multishow (multi-show???).

A Trilogia Lugosi.

Apesar da menção ao Bella Lugosi no título, acredito que a trilogia poderia ser entendida como trilogia Mary Shelley, ou o mito pós-moderno do Frankenstein. A trilogia é uma sequencia de recortes que hora faz menos ou mais sentido de acordo com a coleção de itens que vão sendo reunidos nos três dias de peças. É um longo caminho até o ponto mais alto. Quando você acredita estar no topo é que o criador encontra a criatura e tudo vem abaixo. A proposta é genial e reúne dentro de um mesmo ser muitas coisas. Dessa vez consegui acompanhar todos os três dias de espetáculo (a peça esteve em Chapecó pela segunda vez, em parceria do Unocultural com SESC – em setembro de 2012). E vendo dessa forma, as coisas fazem um sentido absurdamente fantástico. As peças vão sendo recolhidas diariamente e as sensações vão acontecendo em doses, diria homeopáticas, se não fossem tão intensas.

Peça 01: O Coração Delator

Coração Delator 01

A trilogia começa com um Coração Delator. O final é surpreendente. Mas é engraçado como o Poe hoje pode soar comum. Graças a “utraviolence” que se transformou o nosso cotidiano nas últimas décadas e principalmente o acesso irrestrito de tudo na TV ou na internete. Estamos cada vez mais sendo bombardeados por casos de amor e morte e assassinatos o tempo todo. Talvez seja a hora de enterrar em definitivo o Poe e valorizar o Willian Bonner. O Bella Lugosi das novas gerações pode ser o Cid Moreira.  Mas então por que Poe??? Porque a genialidade da proposta não esta exatamente no que você vê. Mas sim no que não se vê. E aí é que vem a costura feita pelas mãos habilidosas de Renato Turnes e Jefferson Bitencourt. Apesar da ampla divulgação em torno do texto Coração Delator, a peça é repleta de citações de outros textos e homenagens ao próprio Poe. Uma série de recortes que recombinados, atribuem novos sentidos e significados para obra de Poe. O Corvo talvez seja a referência mais clara, não tem como não perceber o tom áspero e desesperado da voz quando ao abrir o baú, são pronunciada as celebres palavras do seu conto/poema mais conhecido: Never More!!! As referencias não param por aí, o texto traz uma carga mais poética e ao mesmo tempo trágica ao relacionar fatos da história de vida do próprio Poe na peça. A personagem principal é um ser doente, que padece física e mentalmente diante do público. Acredito que a vertigem do texto de Poe também se faz presente em função da relação com as dores existenciais, lógico, mas também físicas que ele sofria. Com isso o texto se funde, se mistura e adquire outros significados. O conto da Ligéia aparece com outro nome. Helena, é um dos primeiros amores de Poe na vida real. A brincadeira é legal e cria uma linha tênue entre a realidade e a ficção. Tem também o poema que fala da infância e que costura o inicio e o final da peça. A Queda da Casa de Usher aparece em dois momentos na peça, hora declamado, hora cantando como letra de uma das canções que são compostas por Jefferson Bitencourt.

É um ótimo começo. Não poderia ser mais adequado. Porque apesar da peça terminar, a saga Lugosi continua com intervalo de 24 horas. É nesse momento que o cérebro funciona e o tempo que separa uma parte da outra, permite com que cada pessoa interfira na história. A peça provoca reações. Não tem como não sair pensativo, contemplativo, olfativo, reflexivo… Não tem como não tentar encontrar referências, tentar entender… ou então penas sentir.

Peça 02: Outsider

Outsider 01

Quando voltamos no dia seguinte para a segunda parte da trama, ou o desenvolvimento da historia, o segundo ato narrativo, encontramos um escritor mais contemporâneo, nascido no século XIX. HP Lovecraft é visionário e parece “entender” o ser humano ou então algo que se pareça com ele.  De maneira ficcional e fantástica ele traça caminhos para entender as agruras do ser humano e materializar de forma abstrata e absurda. Lovecraft entendeu tudo e percebeu que precisávamos exorcizar e traduzir isso através de criaturas, seres que só existem na imaginação, mas que podem muito bem estar próximos a você, as vezes do lado de dentro. Talvez o maior desafio da trilogia. Traduzir Lovecraft para uma linguagem de teatro. Mais uma vez a percepção habilidosa de Renato Turnês e Jefferson Bittencourt se fazem presentes. A imagem é humana, mas são as nuances que o tornam monstruoso. O escuro é intenso. A profundidade é abissal. Somos jogados num poço escuro. A visão é turva. A percepção se torna alterada pelo clima, pelo que não vemos, pela música intensa, ruídos estranhos. No palco algo se movimenta e não conseguimos perceber o que é. A primeira coisa que vemos são mãos iluminadas por uma vela. É claustrofóbico e aterrorizante. A tensão é permanente. O texto de Lovecraft cresce na interpretação visceral de Renato Turnes. A nossa imaginação está voltada para um foco muito tênue entre dois mundos. Enxergamos um homem, mas não temos plena certeza, pode ser uma criatura qualquer ou alguém que conhecemos. É uma imagem aterrorizante porque é parecida com a gente, como diria Mutarelli através da criança que caiu no poço em Natimorto. O ambiente é frio. Úmido. Os elementos estão todos ali e vamos sendo bombardeados por todas essas sensações. Quando vemos a criatura, sentimos uma confusão. Um misto de carinho e horror com aquela criatura que se torna cada vez mais intima.

O texto do Lovecraft é mais linear. O entendimento parece mais óbvio, mas não menos profundo. Podemos interpretar de diversas formas. É legal quando o texto, mesmo fechado, proporciona outros entendimentos e relações com outras coisas. É o desenvolvimento. É o momento que nos apaixonamos pelo universo cirurgicamente costurado para isso. A ramificação explosiva de referencias é inevitável.

Interlúdio.

No terceiro dia o universo Lugosi é crível. Começamos acreditar em tudo isso, temos a sensação de que estamos entendendo tudo. Meros seres humanos e sua eterna pretensão em acreditar que um dia possamos entender tudo. No terceiro ato somos derrubados com a dúvida a incerteza, o questionamento do que é real dentro disso tudo. A terceira personagem é um ser mais contemporâneo, e de certa forma comum. Ele poderia passar despercebido, não parece o ser atormentando do “Coração Delator” e muito menos a criatura hedionda do “Outsider”. Ele é um ser mais polido, educado e bem vestido. A imagem nos engana. O conteúdo é confuso e a eterna insatisfação do ser começa aparecer desde os primeiros momentos da peça. O palco vira um grande espelho. É tudo tão fragmentado. Pequenos trechos, falas, recortes. A impressão inicial é que tudo aquilo não faz sentido. Parece que não combina. Essa eterna briga para entender o todo, ou as vezes tentar entender algo.

Se pensarmos nos três atos narrativos, a introdução com o Poe é sensacional. Ele representa o alvorecer disso tudo que se chama “ser humano”, ou então “contos de terror”. Ele faz o papel mais difícil, é o Poe que briga com os outros macacos para tentar entender o segredo do monolito. À força ele aprende a usar a ferramenta e nos ensina a bater com o osso na cabeça dos outros macacos. Antes de jogar o osso pra cima. Antes do corte que separa uma coisa e outra, vem o Lovecraft. Profundo. Vertical. Vertiginoso. Assustador. Uma visão, um espectro ou quase isso, de nós mesmo. Por isso mesmo que, encerrar a trilogia com um texto contemporâneo é sensacional. É um final surpreendente. Por vários motivos. Pela mistura insana de referências. O ser humano de hoje é isso tudo. É um mistura de tudo e de nada. Ele se olha no espelho e não vê mais o monstro. Se vê algo, acha bonito, posta na internet, acha que tem poder, mesmo que  nem sempre aquisitivo, se acha moderno nas suas maquinas elétricas ou eletrônicas, gadgets futuristas que não levam a lugar algum, idealiza o topo da cadeia evolutiva, e o que é pior acredita plenamente em tudo isso. A maneira como somos conduzidos a perceber isso é sensacional.

Peça 03: O Fantástico Homem que Imitava a si Mesmo.

Homem que imitava 01

No palco além do baú que faz parte das três peças, tem uma penteadeira com um espelho. A peça começa com a imagem dentro do espelho no melhor estilo Branca de Neve, como uma espécie de apresentador que lembra os primeiros seriados da década de 50. Somos apresentados ao personagem mais confuso e insano da trilogia. O texto é irônico. Ele brinca com o público como se dissesse: Olha o que vocês vão ver não é real, mas pode ser que seja. Ele fica divagando sobre algo, ou alguém que insiste em imitar ele mesmo. Ele se confunde, o texto é confuso e lógico que confunde o público. É o ser humano e a suas múltiplas faces. O espelho vira TV. Uma mímese de um trecho do filme Drácula. Um vampiro, uma criatura atormentada. Lugosi no seu age. Ali Lugosi é Lugosi. De dentro do baú ele recria em pantomima a imagem de Lugosi. A mímica ironiza o mestre. Tornando o mestre do Horror caricato. Mais caricato do que jamais foi. Aqui as referências se misturam. O texto que dita o ritmo ao espetáculo é do Bonassi, mas as citações são inevitáveis. Tem referência ao Bram Stoker. Mais Edgar Allan Poe com William Wilson (Se falei no inicio, que Poe deveria ser enterrado, me redimo aqui, ele tem que ser lembrado eternamente). Referencia sutis ao Gabinete do Dr. Caligari e ao expressionismo alemão como um todo…

(fica o espaço aberto a novas leituras e interpretações)

Sem mais nem menos somos jogados dentro do baú. E quando saímos, saímos confusos. A citação é Hamlet. Hesitamos junto com a personagem. Já escrevi sobre isso. Não vou me tornar repetitivo não vou transformar esse texto num espelho do que já disse anteriormente. Muito menos criar uma dupla interpretação com o intuito de explicar ou confundir ou simplesmente relatar o que acontecer.

Trilogia do Baú!?

A trilogia é um Frankenstein. Uma sucessão de recortes, textos citações. Visíveis ou não vai muito da percepção do público em sacar como tudo é costurado. As vezes a cicatriz é tão sutil que não se percebe. Não queremos ser o assassino, mas nos identificamos com ele. Não somos o monstro, mas por alguma complacência nos aproximamos muito dele. Estamos sempre nos olhando no espelho tentando entender, mas quando percebermos, já será tarde. Já temos a resposta disso, mas é difícil encarar de maneira plena (é difícil perceber o tempo, as rugas e os fios de cabelos brancos).

Renato se aproxima do público e como ele faz nas outras duas peças,  reverencia ao público. Este aplaude fervorosamente. Ele ri ironicamente agradece e continua a peça. E quando tu menos espera ele vira imagem de cinema. Um corte genial. Um prólogo da trilogia. O ator vai em direção ao horizonte e desaparece no escuro do palco. A continuação da peça não é mais uma peça. É cinema. Uma ilusão. Temos a impressão de já ter visto aquela cena. É um espelho. É o que somos. Uma ilusão. Não resta mais nada alem de um palco vazio e os creditos que passam no espelho. Um epitáfio. Uma gigantesca ruína de algo que um dia existiu. Ruína, por dentro e por fora.

Fotos e texto: Roberto Panarotto.

Coração Delator 02Outsider 02Homem que imitava 02