Arquivo para setembro \19\UTC 2017

Simplesmente efapi!

Por Roberto Panarotto

Primeiramente, obrigado pela lembrança em alguns momentos nas falas, escritas, posts e afins sobre o assunto;

Esta discussão que estamos vivendo hoje em Chapecó, em relação a cultura x efapi, é uma história que se repete a cada edição da feira. É algo que percebemos (de maneira bem espontânea, é sempre bom dizer) desde que fizemos uma música chamada “Chapecó” que, coincidentemente ou não, leva o nome de uma cidade de mesmo nome, mas que na sua essência versa sobre as percepções culturais do município. Sempre enfatizo nos shows (quando acontecem), como é triste perceber o modo como a discussão é sempre empobrecida quando somos avaliados artisticamente; e o momento que o Brasil vive é ainda mais propício pra isso;

Com a banda Repolho, por exemplo, passamos por uma situação semelhante na efapi de 2003, que foi a última vez que nos inscrevemos para tocarmos na efapi. Na época, os organizadores resolveram fazer uma (a)mostra. Ou seja, as bandas deveriam – além de toda burocracia tradicional alegando e comprovando a existência, relevância etc – se apresentar na praça para uma comissão julgadora (que no caso não conheciam a cena local). Algo totalmente estúpido e sem noção. No caso da banda Repolho, em atividade desde 1991, já tínhamos cds lançados, atuação constante no cenário local e cm repercussão, em alguns momentos, para além das fronteiras do estado, e juntamente com outras bandas da cidade estávamos a mais tempo em atividade, matérias de jornais, revistas etc.. comprovavam isso.

Resumindo, acabamos participando da tal mostra seletiva para não parecer pretencioso da nossa parte. E olha que legal, fomos desclassificados. Por que? Não recebemos sequer justificativa digna. Posteriormente descobrimos que o motivo principal da desclassificação foi o fato de tocarmos uma música que se chama “Chapecó”, que leva o nome da cidade de Chapecó e que na interpretação deles (e de outros tantos) fala mal de Chapecó. Também disseram que fomos desclassificados por chamar o público de colono (segundo fontes extraoficiais da época).

Falta de noção, de memória e de entendimento artístico é pouco para classificar as ‘organizações efapi’. Ficamos chateados (sem a hashtag que na época era conhecido por jogo da véia memo); como muitos que hoje se manifestam aqui por problemas de ordem um pouco diferente, mas tão excludentes quanto foi o nosso caso na época. Até postei um texto no meu blog na época, muito mais como um esclarecimento as pessoas que me perguntavam porque a banda não iria participar, do que propriamente como reclamação ou reivindicação.

Depois disso não nos escrevemos mais, por respeito a nós mesmos e as pessoas que curtem a banda, já que as “organizações efapi” nunca valorizaram a cultura local.

Tá, estou sendo trágico. A primeira efapi que participamos foi em 1994, tocamos na concha acústica (palco principal) numa noite dedicada as atrações locais (olha que ideia boa) e tocamos uma segunda noite num placo secundário, montado dentro de um circo, com estrutura de som, arquibancadas para o público. Lógico que nessa época também tinham as imposições burocráticas, regras estapafúrdias como por exemplo “ as bandas devem se apresentar com calça jeans e camiseta branca e não podem ter músicas que falem mal da cidade”. Mesmo isso como via de regra, fomos escalados para tocar e nos apresentamos duas vezes. Depois disso foi uma decrescente total. Na efapi seguinte aconteceu um problema aqui e outro ali, um de divulgação, um de corte do tempo da apresentação, um outro de não deixar a banda passar o som, outro do som estar ruim e mal regulado, outro do horário das apresentações locais acontecerem em horários horríveis, outros da localização do palco, o cache que sempre foi simbólico, outro da chuva, outro da hiper-mega-maxi valorização do artista de fora (por parte da organização e do público também). Tentávamos fazer o máximo com o mínimo de condições que tínhamos.  Com tudo isso entendemos que eram muuuuitos pontos negativos pra pouco retorno. Enfim, decidimos que aquilo que acontece ali não nos interessava mais, mesmo tendo feito shows bem legais, no nosso modo entender, nos anos que participamos.

Se o dinheiro não compensa, o show é cortado, o som é ruim, o horário não atrai o público… por que se inscrever numa feira que não tem intuito artístico? Nesses momento, a efapi não serve nem como a mãe que só valoriza os filhos na frente das visitas. Vagabundo, sem vergonha, salafrario, vs. olha que legal, meu filho é músico. Entendo que o posicionamento é comercial e por mais que se utilizem dos artistas pra levar público pra ver os estandes a efapi, para classe artística (em geral, no meu modo de entender, é totalmente descartável. Mas respeito quem acredita que ali possa ser uma boa opção. Nem que seja pelo dinheiro, que hoje é muito melhor (mesmo achando que é muito aquém do que poderia ser) e até entendo que essa talvez seja a única recompensa.

Quanto as mobilizações, sempre acho importante que as pessoas que se sintam ofendidas com algo, tenham o direito e a possibilidade de se manifestar, opinar etc etc. desta forma, vamos construir um cenário melhor.

Quanto as discussões que nesse momento se acaloram, também acredito que seria legal manter esse ritmo sempre e não somente em época de efapi.

Sobre as estátuas. Acho bonito estátua e com a crescente de aves da família columbidae que temos em nossa cidade, é uma forma de ter pluralidade de opções para os pombos cagarem em cima. Só lamento que se pague tanto do nosso bolso e da sofrida cultura local para bancar isso tudo.

Por hora, era isso.

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