Arquivo de janeiro \23\UTC 2011

O ir e vir. A Morte Com Frete Grátis.

O ir e vir é uma opção. Vivemos num mundo livre. Um mundo de escolhas e inúmeros caminhos. Mas nem sempre depende das pessoas. As vezes depende de algo que ainda não compreendemos direito. Os mais crentes pensam se tratar de um ser superior que rege a tudo e a todos. Os mais céticos acham que é o acaso, algo totalmente sem sentido que interfere nesse desejo de continuar ou de se estabelecer de forma diferente. Bergman dizia: “somos mortos insepultos apodrecendo debaixo de um céu cruel e vazio”.  Se é uma coisa ou outra eu não sei, só sei que somos muito pequenos e impotentes diante disso tudo.

Alguns brincam com a morte de forma irônica. Outros a tratam como tabu. Os mais experientes entendem como um rito de passagem. Neil Gaiman Retratou a morte como uma mulher com aspectos atraentes e fatal. Bergman foi um pouco além e ousou desafiar a morte para uma partida de xadrez. Apesar disso tudo, deveríamos saber que não é a forma com que lidamos com a morte que vai determinar quando será a nossa hora. É a maneira como vivemos e as coisas que fazemos para os outros e principalmente para nós mesmos. E mesmo assim isso não é determinante. Tenho costume de dizer que cada um se mata do seu jeito. Sem cinismo ou falsos moralismos e muito menos aquela premissa de que todo mundo que morre vira santo. Mas as vezes percebemos casos em que a pessoa nunca fez mal pra ninguém e acaba tendo um fim trágico. É difícil compreender o porque isso acontece com algumas pessoas e não com outras. Porque deveria ser antes ou depois ou então naquele exato momento. Instantes de segundos onde tudo acontece ou pode acontecer e que as vezes não acontece nada. Quando é o limite disso tudo??? Existe um extremo, onde ultrapassamos as barreiras e não temos mais a opção de volta?

A pergunta pode ser complexa e a reposta pode ser um momento de silêncio. Uma pausa entre um momento e outro. Silêncio é legal, mas a musica é algo muito superior. Pra mim tudo fica muito mais triste quando morre um músico. Ao meu ver, a música é algo superior. A possibilidade de ouvir uma bela canção não tem explicação.Sem música, a vida seria um erro.”. Disse certa vez um filósofo ateu. Essa frase pra mim é quase um mantra. Não consigo me imaginar, ou imaginar a minha vida sem a música. Por isso acredito que deveria existir uma exceção nesses casos. Músicos não deveriam morrer cedo. Deveriam ter a chance de jogar xadrez com a morte para prolongar um pouco mais a partida.

A vida é assim.  Quando nascemos vem tudo incluso no pacote. O problema é que não somos acostumados a encarar isso de uma forma mais tranqüila e natural. Ficamos tristes quando morre alguém próximo, as vezes com raiva… outras vezes nem damos bola quando se trata de uma noticia de alguém distante. Estamos em Chapecó. Ano de 2011 e começamos o ano do rock com a notícia da morte do baterista Tubin – integrante da banda Epopéia. Um jovem como qualquer outro que acreditou que a música poderia ser uma saída. E foi. Presenciamos muitos momentos vendo ele empunhar as baquetas desse instrumento tão preciso e impressionante. Ver o Tubin tocar era divertido. É legal ver as pessoas que sentem prazer naquilo que fazem e por isso mesmo o fazem muito bem. Vi muitos shows do Epopéia e sempre me diverti muito. Mas o momento da despedida é mais introspectivo. É o momento que nos faz pensar num monte de coisas.

A cidade amanhece mais triste. Talvez nem todo mundo perceba. Mas não importa. Passamos um momento na história do rock chapecoense que já não é dos melhores. Os espaços se tornam cada vez mais estreitos e as possibilidades cada vez menores. Percebemos uma invasão de musica ruim e nos sentimos impotentes contra isso tudo. E isso parece tão inevitável quanto a morte. A música ruim e a morte andam lado a lado. Mas temos que acreditar em algo. Temos que nos apoiar nas coisas boas que permanecem e nas possibilidades que se reconfiguram. Se fosse pra escolher, e se eu tivesse esse poder escolheria o inverno sempre. Mas temos que aprender a conviver com todas as estações.

Não podemos encarar o momento da despedida como um fim. Talvez seja o momento da pausa. O momento de um intervalo entre uma música e outra, entre uma frase de guitarra ou virada de bateria. Partir é isso. Um espasmo de tempo tão curto dentro de um compasso maior que á música. Pros que vão, um valeu e até a próxima! Para os que ficam permanece a imaginação dos momentos compartilhados. Os frames da vida que só são percebidos quando não estão presentes. Na minha opinião a vida deveria ser mais musica. Em todos os sentidos.