Arquivo para março \24\UTC 2016

Domingo no Parque: Um mosaico de imagens mil.

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Por: Roberto Panarotto

Quando fui convidado para participar do evento, confesso que fiquei apreensivo. Não tinha mais ido a Porto Alegre depois da morte do Flávio, uma situação ainda recente. Não tinha caído a ficha, de que em termos físicos não veríamos mais um show, não poderíamos dar uma volta no parque, trocar uma ideia. Acabei aceitando o convite pelo fato de ser o Ray-z um dos organizadores. Que além de músico, parceiro, produtor e amigo sempre foi um grande admirador da obra do Júpiter. Me fazer presente, representando a colonada roqueira do oeste catarinense, seria legal em contrapartida a todo o carinho que o Júpiter sempre teve com Chapecó, realizando diversos shows em vários momentos e nos mais variados estados de espírito desde 1995 (ano da primeira apresentação na cidade em carreira solo, ates disso ele já havia se apresentado com os Cascavelletes). Cada um dos shows foram marcantes e com características peculiares.  Pelos meus cálculos, foram 12 apresentações, trazendo sempre o seu olhar diferenciado e único em performances memoráveis. Algumas delas circulam na internet. Esse show de 1995 com a formação dos Irmãos Caruso que em seguida gravariam o Sétima efervescência e o show de 1997 (com o Marcelo Gross e Júlio Cascaes) estão presentes no inicio do filme Pescando Júpiter segundo Huxley, tem também uma apresentação semiacústica que virou um bootleg compartilhado nas redes. Enfim…

Fomos convidados (eu mais o Demétrio que acabou não podendo ir) uns quarenta dias antes. Aceitei participar, defini a música que iria cantar e fui me desligando aos poucos. Na última semana mesmo, quando começaram a sair as divulgações que me toquei de quão grande essa ideia havia se transformado. Ali que eu constatei a lista de pessoas que estariam reunidas, que seria no Araújo Vianna… pensei, no mínimo vai ser emocionante.

A Efervescente mente de Júpiter Maçã

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É Impressionante ver essa galera toda reunida, num excelente clima em performances únicas e memoráveis. Muitas histórias, rolando nos bastidores. Muitas ideias trocadas e todos relembrando os momentos ao lado do Júpiter. Era impossível não sentir a sua presença ali. Até porque tudo isso e todo esse universo artístico durante muito tempo girou em torno da loucura que ele fez se materializar numa obra impar na história da música mundial. No repertório 27 grandes clássicos de quase todas as fases. Impressionante é ver a força de cada uma das canções, formando um repertório de hits que poderiam ter conquistado o mundo (pois bem, estão nos discos e quem sabe um dia vai.

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A sequencia do set list foi essa. Cada um tem o seu melhor momento. Mas vou citar alguns.

A base musical da noite ficou a cargo do Império da Lã. Sempre quis ver eles em ação e tive a oportunidade de ver bem de perto e de fazer parte cantando As Mesmas Coi… er.. Pictures and Paintings (que tem 3 estrofes e não 4). Liderados pelo maestro Carlinhos, eles foram fazendo a festa acontecer de forma sensacional. A presença do Carlinhos como anfitrião é algo sempre foda em termos performáticos. De maneira insana e verborrágica ele consegue prender a atenção do público mostrando porque é um dos grandes (estou falando do peso da alma, só pra deixar claro) artistas gaúchos da atualidade (seja a frente da Bidê ou Balde, Império da Lã, escrevendo ou apresentando um programa de televisão). As celebrações iniciaram com uma fala emocionada que dizia: Nós somos o Império da Lã, nós somos maiores que o império Bizantino  nós somos maiores que o império da Grã-Bretanha, somos maiores que o império Otomano… nós somos maiores que todos os impérios que vocês conseguiram estudar no colégio, nos só não somos maiores do que Júpiter Maçã! Em seguida abriram os trabalhos com “As tortas e as Cucas”. De arrepiar.

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O segundo convidado da noite foi o Wander Wildner. Que sempre é importante registrar e constatar: o que é a empatia e a presença de palco desse cidadão punk-brega-portoalegrense do mundo? Em palco ele se transforma num monstro. Uma coisa além de tudo o que podemos compreender. Se o Júpiter tinha esse carisma e empatia com o público, ninguém melhor que o Wander para abrir a lista de convidados e ditar o ritmo das emoções. Só me fez lembrar porque sou fã dele. Foi o momento que o público levantou, e dali pra frente ninguém sentaria mais.

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Na sequencia foi a vez de reunir os Cascavelletes e o TNT, ou pelo menos uma boa parte dele. Márcio Petraco, Luís Henrique “Tche” Gomes e o Nei Wan Sória acompanhados pelo outro lado dessa história toda, o Cabelo da banda Identidade e também pelo Pedro Petraco na bateria e o Leonardo Boff nos teclados. Como é bonito ver as gerações se encontrando no palco e dessa forma. No caso do Petraco, estava ao seu lado na lateral do palco e ele apontou para o filho tocando bateria, todo orgulhoso, olha ali, é o meu filho (falou algo do tipo, como se eu não soubesse). Dai completou. Não sabe nada de rock and roll. Eu falei de forma irônica, sim sim tem que aprender muito ainda…

Nei Wan Sória já entrou em campo com o jogo ganho. E fez jus ao que se esperava dele. Ao cantar “Lobo da Estepe” trouxe uma cadeira ao palco. Representando o espaço que outrora foi ocupado pela presença física e voz do Flavio Basso. E teve gente que jurou que viu ele ali. E estava né, como ele poderia deixar de estar presente nessa festa bonita. Nei acompanhado do Império da Lã e com a presença do Cokeyne Bluesman ainda tocou “Sob um Céu de Blues”. Só alegrias e emoções e a festa estava só começando

Frank Jorge contou a história de uma música: “Estava ali em 86 fazendo o tal do curso de pré-vestibular. quando fui mostrar pra minha mãe, dona Marlene (a música recém composta). Mãe eu fiz essa música com o cara que é da família Basso que mora também aqui na Thomas Flores. E como que é a música meu filho? É mais ou menos assim… e Araújo inteiro entoou em uníssono a introdução: menstuaaaaaada,  tá menstuaaaaaada,  menstuaaaaaada…

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Marcelo Gross e Júlio Cascaes, a dupla que formou com o Júpiter o melhor power trio que já vi ao vivo, numa apresentação impecável tocaram o Novo Namorado. Nessa música o Gross cantou e tocou guitarra, mas em seguida assumiu as baquetas, sempre reforçando, como é legal ver o Gross tocando bateria.

Beatle George trouxe ao palco Lúcio Vassarat nas citaras e Ray-z para engrandecer este grande time futebolístico que atende pela alcunha de Bidê ou Balde. Todo charme e elegância de uma banda que tem em seu elenco de grandes estrelas, Vivi, Sá e Pila (do Carlinhos, já puxei o saco antes, mais precisamente no quarto paragrafo desse texto) e que ao vivo mostra muito mais do que uma estética impecável, performances únicas e memoráveis.  Um pouco depois a Bidê se transformou num time supersônico, muito melhor que o Barcelona ou a seleção holandesa de 1974, com Gross na Bateria e Frank Jorge nos Teclados.

Quando Bibiana Graeff entoou as primeiras notas do seu acordeom em   Mademoiselle Marchand uma lágrima escorreu. Acompanhada pela Joana Ceccato encantaram os presentes num momento lindo e intimista.

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Edgard Scandurra com a Silvia Tape apresentaram uma belíssima versão de Welcome to the Shade, depois cantaram Miss Lexotan. Scandurra numa elegância e sabedoria interrompeu a música e disse, “desculpa gente, eu fiz uma pequena troca (na letra) essa musica é maravilhosa e vale a pena começar de novo”. O público aplaudiu em êxtase.

Foi um desfile de celebridades do rock gaúcho em momentos lindos. Um mais lindo que o outro.O evento durou mais de duas horas e o público que lotou o Araújo não arredou pé. Depois disso tudo ainda teve o Clayton (baterista do Cidadão Instigado) que participou em diversos momentos (na carreira do Júpiter e no show), destacaria aqui a versão de “Exactly” que ficou muito foda, fazendo jus aos momentos mais insanos da carreira do Júpiter.  Rafael Malenotti, Duda Calvin e Luciano Albo, retomaram os momentos Cascavelletes, aí não me segurei mais, já estava empolgado na lateral do palco cantando tudo, pensei, daqui há pouco vão me tirar daqui, olhei pra traz e estava todo mundo cantando ou dançando, olhei pro público e o clima de celebração era intenso. Dali pro final, foi só alegria onde todos foram chamados ao palco para um final apoteótico pra cantar a Marchinha Psicótica regida pelo General Bonimores e Império da Lã.

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E tu acha que parou aí? Capaz, ainda tinha o Egisto Dal Santo que encabeçou mais uma vez Lugar do Caralho (que poderia ter sido tocada a cada duas musica que o público ia cantar aplaudir e se emocionar do mesmo jeito). Com espírito “rockeiromacacovéio’, entendeu o momento e a vibe da ocasião e como bônus puxou Essência Interior colocando a cereja final do Bolo.

Importante aqui, registrar a presença sempre discreta do anfitrião Ray-z, o cara que conciliou tudo isso. Acredito que essa união só aconteceu em função da pessoa querida que é o Ray e pela forma com que todo o processo foi conduzido.

Também senti falta de algumas pessoas, várias diga-se de passagem, pessoas que estiveram presentes na vida do Flávio e que somariam ainda mais esse grande elenco estelar que sempre circundou no universo Maçã. Se todo mundo participasse, daria pra fazer um show da virada, com 24 horas ininterruptas de rockjupiteriano. O que é legal é que possivelmente poderá rolar um segundo, um terceiro e assim por diante… enfim…

Lógico que voltei pra Chapecó extasiado e pensativo em relação a isso tudo. Importante perceber e entender como Júpiter faz falta. Interessante foi estar lá  e poder constatar como essa galera toda tinha um envolvimento com ele. Em muitos momentos deu um nó na garganta. Em diversos momento foi foda olhar pro palco e ouvir aquilo tudo, todo um universo de percepções que muitas vezes foram além da nossa compreensão em termos estéticos, musicais etc. Entender nesse contexto, que tudo isso formava um mosaico único e intenso, perceber a força de um repertório sensacional, complexo e popular, intenso e criativo, cult e pop ao mesmo tempo. Também lembrar que o Flavio não estava mais ali para poder desfrutar de tudo isso que ele criou. Se for pensar, durou pouco, poderia ter durado muito mais, mas foi intenso e mexeu com a cabeça de muitas pessoas. Entendendo que a morte é necessária, aceitamos tudo isso como uma grande celebração de uma obra que em 2020 vai virar hit nacional.  Só me resta dizer que fiquei com uma sensação boa de uma saudade que não tem limites.

Até o Thomas Dreher foi no evento e após, escreveu a melhor de todas as percepções, por isso copio em citação:

“Sobre a memorável tarde de ontem: Foi um dos eventos mais inspiradores realizado nos últimos tempos. O show foi de alta qualidade. O repertório composto de todas as fases da carreira do Flávio. O que mais me impressionou foi como todos os participantes estavam na mesma vibe. Muitos não se viam a muito tempo. Estava rolando um verdadeiro espírito de amizade. Todo mundo unido. Todo mundo em festa. O Araújo Viana estava lotado de pessoas emocionadas e enlouquecidas. Rest forever here in our hearts, Jupiter.”

Ainda em tempo:

Imbróglio 1. Cheguei para cantar a música “As Mesmas Coisas”. Era o que eu tinha combinado, e por algum detalhe que passou despercebido da produção foi mudada a música, só que não me avisaram. Cheguei pra fazer uma coisa e tinha que pensar outra na hora. A sorte que eu sempre fiz parte da banda Repolho que me proporcionou inúmeros momentos como esse. Onde tudo o que era planejado não se concretizava ou acontecia de forma catastrófica, e o que se mudava na hora acabava ficando melhor. Se ia dar certo ter cantado “As Mesmas Coisas” eu não sei, mas achei legal a música que escolheram pra mim cantar e me escabelar… Pictures and Paintings acabou sendo muito bacana.

Imbróglio 2. Sempre reforçando a minha teimosia de não músico praticante,  na passagem de som rolou uma discussão minha contra todos os músicos do Império da Lã. Eu dizendo que tinha 4 partes a música e eles (todos) dizendo que tinha 3. Acabei convencendo eles de que tinha 4, daí fomos ouvir e tinha 3. Ainda nessa de não dar o braço a torcer, disse, mas então foi o Júpiter que gravou errado.

Love Júpiter!

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